terça-feira, 14 de junho de 2011

A língua que aprendemos, a língua que falamos


Imagine um brasileiro em uma situação corriqueira, como fazendo um pedido em um restaurante. Se ele estiver em Pernambuco, vai pedir macaxeira cozida. Mas, se o cenário for o sul do País, o mesmo prato terá nome de aipim ou mandioca.
Isso porque aipim e macaxeira são variantes lexicais, ou seja, há mais de um vocábulo para designar a mesma coisa, seja por decorrência de restrições geográficas, históricas ou sociais.
Estudos desta natureza não são tão recentes. Desde 1826, com o capítulo  contendo dados lexicais de algumas regiões brasileiras, registradas por Visconde de Pedra Branca a pedido do geógrafo Adrien Balbi para integrar o  Atlas Ethografique du Globe, que já se mencionou um pouco da diversidade lingüística do País. No entanto, uma propagação mais relevante dos estudos deste porte só passou a ocorrer no século XX, com publicações de Amadeu Amaral, Antenor Nascentes e Mário Marroquim, autores de O Dialeto Caipira (1920), O Linguajar carioca (1922), A Língua do Nordeste (1934), respectivamente.  Desde que foram lançadas, essas obras têm contribuído para o auxilio de pesquisas, monografias, artigos, teses que retratam algum fenômeno de fala de comunidades pequenas até análise de grandes centros urbanos. 
Assim, o próprio Antenor Nascentes teve a ideia de coletar dados do português falado no Brasil e “mapear” esses dados em uma Atlas. Sua ideia, em 1952deu lugar a projetos locais, que começaram a surgir 11 anos depois com a publicação do Atlas Prévio dos Falares Baianos, por Nelson Rossi e suas colaboradoras. Daí em diante, não se parou mais. Seguiram-se os Atlas de Minas Gerais (1977), Paraíba (1984), Sergipe (1987), Paraná (1994), Região Sul (2002), Pará (2004), Sergipe II (2002) e o mais recente do Amazonas (2004), que já foram concluídos.
Há outra quantia em fase de elaboração ou em planejamento, como os trabalhos sobre a fala dos estados do Ceará, Rio de Janeiro, São Paulo, Acre, Mato Grosso, Maranhão, Espírito Santo e Rio Grande do Norte.
Abaixo encontraremos quadros com algumas variações lexicais já encontradas. 

NORTE
Item, referencial ou designação
Termos encontrados


Terreno ou a terra que fica próxima ao rio.

Várzea, igarapé, varje, varja, valja, valje, vaji, vaja, garapé.
Bêbado.
Bebedeiro, beberão, alcoólatra, cachaceiro, biriteiro, lambiqueiro, papudo ou papaudo.
Cigarro de palha.
Cigarilho, porronca, tocha, tarugo e tauari.


NORDESTE
Conceito, item ou referente

Termos encontrados
Barras coloridas que aparecem no céu, antes ou depois da chuva.
Arco- íris, arco-celeste, arco- da- velha, arco- da- aliança, arco - de - velho.
Estrela que se desloca no céu e faz um risco de luz.
Estrela cadente, planeta, cometa e zelação.
Á pessoa que não gosta de gastar dinheiro e, ás vezes, até passa necessidade.
Avarento, sovina (o), seguro, mão apertada, unha de fome, agarrado, arrochado, papagaio no arame, amarrado que nem catarro na parede.
Osso redondo que fica na frente do joelho.
Rótula, pataca, bolacha, pataquinha, patinho, cotovelo, bolachinha, prato, rodela, carapuça e bolinha.
Tornozelo.
Rejeito, junta, mocotó, junta do pé, osso de São Severino, osso do gostoso.
Grão de feijão, no pé antes de serem colhidos.
Bage, bagem, casca, rama, galhos e caule.
Pessoas que tem os olhos voltados para direções diferentes.
Zarolho, vesgo, estrábico e zanoio.


CENTRO-OESTE
Item
Termo encontrado
Rugas
Pé- de- galinha, enrugado, prega, geada, pezinho- de- galinha, pé- de- piru, rusga.
Pálpebras
Capa- do- olho, capela- do- olho, capela, palpulas, pelinha- do- olho, olho-gordo, papa- do- olho.
Cílio
Pestanas, cílios, cabelo, assombração.


SUDESTE
Item, conceito
Termos encontrados
Pequeno rio de uns dois metros de altura.
Córrego, riacho, lago, riozinho, bisca, brejo, canal, lagoinha, laguinho e valeta.
Tronco, pedaço de pau ou tábua pela qual se passa.
Ponte, pinguela, passarela, apoio, árvore, gambiarra e viela.
Foz.
Bifurcação, fluente, beco, braço, cachoeira, curva, encruzilhada, finzinho do riozinho, represa e riacho.


SUL
Conceito
Termos encontrados
Ave preta que come animal morto.
Urubu, corvo, abutre, come-carniça, bicho- carniça, corcovado e carniceiro.
Galpão.
Paiol, garagem, rancho, barracão e tulha.


Fonte:  Sá, Edmilson. A língua que aprendemos, a língua  que falamos. Revista Conhecimento Prático - Língua Portuguesa n° 20, 2010.

Postado por: Myrella Araújo.

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